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Transgênicos: mais uma trapaça

MILHOMídia deu, em todo o mundo, vasta repercussão a relatório norte-americano que atesta suposta “segurança” dos OGMs. Mas agora sabe-se quem financiou o estudo…

Por Nadia Prupis | Tradução: Gilberto Schittini

Cresce o ceticismo público sobre um novo relatório que afirma ser seguro o consumo dos organismos geneticamente modificados (OGMs). A desconfiança cresce à medida em que vêm à tona informações de que a organização que produziu o relatório tem relações com a indústria de biotecnologia. 

O relatório Genetically Engineered Crops: Experiences and Prospects (pdf), lançado em 17 de maio pela Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos, afirma que não apenas os OGMs são seguros para a alimentação, como também não têm impactos ambientais negativos e levaram à redução no uso de pesticidas. Essa publicação é lançada no momento em que o Congresso norte-americano – que fundou a instituição – estuda tornar obrigatória a rotulagem de transgênicos.

“Claramente existem fortes argumentos sobre os riscos e uma pressão considerável da opinião pública para a rotulagem obrigatória de produtos contendo material geneticamente modificado. Já o comitê não considera que a obrigatoriedade de rótulo seja justificável para proteger a saúde pública”, afirma o relatório.

Entretanto, um dia após a publicação o grupo de defesa ambiental Food & Water Watch (FWW) divulgou em nota (pdf) que o Conselho Nacional de Pesquisa (National Research Council, NRC) – braço da Academia Nacional de Ciências – tem relações fortes com as indústrias agrícolas e biotecnológicas, o que, diz o FWW, “criou conflitos de interesse em todos os níveis da organização”.

O NRC e a Academia Nacional de Ciências recebem milhões de dólares de financiamento de corporações como a Monsanto, a DuPont e a Dow Chemical, relatou o FWW em sua publicação Under the Influence: the National Research Council and GMOs (pdf).

Representantes dessas companhias – e também da Cargill, General Mills e Nestlé Purina, dentre outras empresas que apoiam os OGMs – também têm assento no conselho do NRC que supervisiona os projetos sobre OGMs. O NRC não revelou publicamente esses laços, disse o FWW. Na verdade, mais da metade dos autores convidados para o novo relatório tem relações com essa indústria.

De acordo com o FWW, não só o NRC tem um histórico de relações com a indústria, como também vem trabalhando para silenciar críticos dos OGMs e das companhias com assento no conselho.

“Enquanto companhias como a Monsanto e seus parceiros acadêmicos estão fortemente envolvidos no trabalho do NRC sobre OGMs, os críticos vêm sendo marginalizados há muito tempo”, disse Wenonah Hauter, diretora executiva do FWW. “Muitos grupos já solicitaram inúmeras vezes ao NRC que reduza sua influência da indústria, pois percebem que o conflito de interesses reduz, claramente, sua independência e integridade científica”.

A publicação do FFW afirma que:

Os resultados fracos, diluídos ou viciados do NRC terão um impacto bastante real no nosso sistema alimentar. Formuladores de políticas públicas desenvolvem regras e regulações com base em “conhecimento científico” sobre OGMs, no que a ciência diz – especialmente o que o NRC diz, porque ele é parte da Academia Nacional de Ciências, criada pelo Congresso para prover recomendações científicas para o governo federal.

E é aqui que a ciência se torna politizada. Companhias como a Monsanto precisam de aliados favoráveis na ciência e na academia para empurrar seus produtos controversos através da aprovação regulatória até as fazendas americanas. Corporações do agronegócio despejam milhões de dólares nas nossas universidades públicas, agem com mão pesada na revisão de artigos em revistas científicas e procuram influenciar entidades científicas de prestígio como o Conselho Nacional de Pesquisa – NRC.

Apesar dessas críticas, o NRC continuou a encobrir suas conexões com o agronegócio e a verdadeira influência que a indústria exerce sobre suas pesquisas.

“De acordo com a legislação específica, o NRC precisa formar comitês equilibrados de cientistas para conduzir suas pesquisas – e revelar quaisquer conflitos de interesses”, disse Hauter. “Ainda assim o NRC não revelou nenhum conflito de interesses dos membros desse comitê profundamente desequilibrado”.

Em sua publicação, o FWW propôs mudanças específicas para combater a influência da indústria:

> o Congresso norte-americano deveria expandir e fortalecer a legislação para garantir que as recomendações científicas produzidas pelo NRC para o governo sejam livres de conflitos de interesses e desvios;
> o Congresso deveria interromper todo o financiamento público de projetos do NRC em agricultura até que políticas significativas de redução de conflitos de interesses sejam postas em prática;
> o NRC não deveria mais acionar financiadores, diretores, autores ou revisores que tenham interesses financeiros nos resultados de qualquer trabalho do NRC; e
> o NRC deveria proibir a citação de referências científicas financiadas ou elaboradas pela indústria, devido à óbvia possibilidade de desvios.

“Empresas do agronegócio como a Monsanto têm um papel desproporcional nas nossas universidades públicas e revistas científicas, e no NRC”, concluiu Hauter. “Enquanto esses escandalosos conflitos de interesses não forem expostos, não teremos boas políticas públicas sobre novas tecnologias, tais como os OGMs”.

Publicado em Outras Palavras.

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