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A Armadilha Germânica

Décadas atrás, alguém disse que a Alemanha tinha descoberto uma forma de ganhar Copa do Mundo sem ter que jogar bola. Havia um fundo de verdade nisso, talvez continue existindo, apesar de toda a evolução técnica que o país apresentou nesse esporte nos últimos 15 anos. Não se discute que tem uma das melhores seleções do planeta, talvez a melhor, e que muito do que fazem dentro e fora das quatro linhas serve de exemplo. O retrospecto alemão em Copa do Mundo só não é o melhor porque tem um título a menos que o Brasil. Apesar disso, tem uma final a mais e sabe-se lá quantas semis, pois, ao contrário de nós, eles quase sempre estão entre os quatro grandes. Na Euro, não é diferente. Contudo, mesmo com quatro mundiais e três títulos europeus, não há uma seleção alemã que desfrute um lugar no coração dos apaixonados por futebol como o Brasil de 58, 82 e 70, ou a Holanda de 74 e a Hungria de 54. Nunca tiveram um Maradona, um Zidane, um Ronaldo, no máximo Beckenbauer, jogador nível Falcão, que sequer consta em nosso “top 5”. A Alemanha não é chegada em drible e não encanta na magia do imponderável. Por essas e outras, vira o time contra o qual se torce, pouco importando se joga bem. A inteligência germânica não é criativa; é analítica, eficiente e (Por que não dizer?) destrutiva. Joga no erro e provoca o erro do adversário via coreografias ensaiadas à exaustão. Uma forma invisível de antijogo que sugou os ensinamentos de grandes equipes (incluindo o tiki-taka do Barcelona) e os otimizou ao modo germano-cientificista. Não são mais o time do chuveirinho e do “um a zero”, é verdade. Evoluíram tecnicamente, têm bons e excelentes jogadores, porém, no fundo, lá no fundo, continuam os mesmos. Jürgen Klinsmann quis mudar isso, trazer entusiasmo, vibração. Conseguiu, mas depois foi embora e deixou o assistente Lowe em seu lugar. O mais alemão dos alemães. O Wernher von Braun dos gramados.

Contra o Chile, atuando com um time quase reserva, a Alemanha jogou mal. Mesmo jogando mal, foi alemã o bastante para fazer prevalecer sua eficiência contra o maior volume de jogo adversário. Os chilenos criaram, chutaram, chutaram, chutaram, mas tiveram poucas bolas limpas na frente do gol. Tudo congestionado. Os alemães não. Roubam uma bola perto da área ou armam um contra-ataque no qual cada jogador sabe exatamente onde deve estar e onde seu companheiro estará; fazem uma linha de passe sistêmica até que um fique cara-a-cara com o goleiro ou com a trave vazia. Não há bola jogada fora, chute precipitado, cruzamento sem destino certo, sem um cara no rebote aqui, outro ali e um terceiro para puxar a marcação. Se o mundo aprendeu a fazer isso, ninguém faz como os alemães e tantas vezes num mesmo jogo. Um “toca aqui e deixa de cá” que parece música, mas é uma marcha estudada e coreografada. Nada é criado “no momento” como o gol de Carlos Alberto contra a Itália. Se o líbero chileno perdeu a bola quando ficou sozinho por dois segundos no campo de defesa, não foi por acidente, fique certo, mas porque havia um ponto cego no arranjo tático de sua equipe, um instante de vulnerabilidade identificado em exaustivos estudos de bastidores. Uma vez visto o ponto durante o jogo, fulano vem de um lado para distrair o líbero enquanto sicrano corre pelo lado oposto, surpreendendo-o ao tentar fugir. Com a bola roubada, fulano e sicrano correm juntos, com beltrano atrás para um possível rebote. Fulano toca, sicrano tem o gol livre a sua frente. Se errar, beltrano aparece para marcar. Se isso te lembra o 7 x 1, se isso te lembra as armadilhas idênticas contra Fernandinho seguidas de uma linha de passe até o gol, não é coincidência. É Alemanha. Futebol laboratório na veia. Não houve falha do líbero chileno. Houve uma armadilha em que ele caiu, como tantas que os alemães criam para ter o primeiro gol e colocar o jogo do seu jeito. Funciona quase sempre, mas se tomam esse primeiro gol, nota-se a dificuldade que têm para cumprir o roteiro. Não os condeno. Cada um usa as armas que têm, mas a beleza do jogo deles atenta contra a beleza do jogo. Pararam a Hungria de Puskas e o “carrossel”, no entanto, não impediram que esses times ganhassem um lugar na história que eles nunca tiveram. Nem mesmo a equipe de 2014, talvez a melhor com a camisa germânica. Por isso, torço contra. Sempre. Eu e grande parte do mundo.

Parabéns, Chile, por tratar futebol como esporte.


Luiz Mendes Junior é formado em Comunicação Social. Trabalha como tradutor, guia de turismo e é autor do romance “O Enigma da Face Oculta”, disponível na página do Clube dos Autores.

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