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Exigências impostas à Terra

À medida que o aumento da população acompanha o crescimento econômico industrial em escala global, fica claro que a Terra – doadora de vida – não consegue suportar as exigências – de extração de recursos, produção industrial, consumismo voraz e recebimento de detritos pós-produção – impostas a ela pelo comportamento humano.

Essa “combinação” de dupla expansão, demográfica e industrial, que serve de amparo para a sociedade consumista, fazendo triunfar o capitalismo de mercado, leva à economia a dissociar-se da realidade da Natureza, e, de modo análogo, permite ainda ao convencionalismo econômico ignorar sobremaneira os fundamentos ecológicos, principalmente em relação aos limites e a taxa de regeneração.

Por trás desses fatos, os números não mentem, confirmando o crescimento populacional combinado com o crescimento econômico: em 1900, o mundo contava 1,6 bilhão de habitantes; trinta anos depois, em 1930, um bilhão a mais de pessoas chegava ao planeta.

Hoje, descontadas as mortes, 220 mil novos bebês nascem todos os dias no mundo, são 80 milhões de nascimentos por ano. Atingimos 7,2 bilhões de indivíduos habitando um único planeta, pressionando e esgotando os principais serviços ecossistêmicos que dão suporte à vida.

Se, no passado, levava-se três décadas para aumentar a população global em mais 1 bilhão de pessoas, atualmente são necessários apenas 12 anos para isso acontecer. Continuando esse ritmo, apenas 60 anos é tempo suficiente para dobrar a população mundial.

No que se refere a expansão industrial, o indicador ainda largamente usado para medir o crescimento físico da economia é o PIB, com todas as gritantes falhas apresentadas em sua mensuração, principalmente pelo fato de não considerar o uso e a depreciação do capital natural, vistos pelo convencionalismo econômico como externalidade.

Pois bem, olhando para o passado não muito distante, em 1950, o mundo produzia a importância de US$ 4,5 trilhões de PIB. Cinquenta anos depois (2000), para um conjunto de pouco menos de 200 nações existentes à época, o PIB mundial já era de US$ 50 trilhões.

Quinze anos após, mesmo diante de crises e solavancos econômicos de proporções graves e estagnantes, o mundo está produzindo US$ 75 trilhões em produtos e serviços, com destaque para os Estados Unidos, China e Japão que, somados, produzem mais de 40% desse montante (US$ 33 trilhões – dados de 2015).

Desse modo, é cada vez mais nítido que a capacidade do planeta de atender nossas necessidades vem declinando significativamente, degradando, passo a passo, mas com velocidade assustadora, a qualidade de vida dos povos.

Os números concernentes a isso também não mentem e nem deixam rastros de dúvidas: olhando, especialmente, para o ecossistema terras aráveis, tem-se que, em 1900, havia 7,91 hectares de terra por pessoa, enquanto em 2002, face ao aumento populacional e o constante processo de urbanização, esse número caiu para 2,02 hectares. A projeção para 2050 – quando o mundo terá então 9,5 bilhões de habitantes – é de 1,63 hectare por pessoa.

Desde 1950, mais de um terço das florestas tropicais já foi eliminada. Sem florestas há menos água; com menos água há menos produtos fabricados (uma calça jeans, por exemplo, requer 11 mil litros de água; um carro, 400 mil litros, e uma simples pizza, 2.680 litros) e, claro, também menos alimentos.

Péssima distribuição de alimentos

Mesmo esse último fato (menos alimentos) sendo verdadeiro, a fome que hoje atinge 850 milhões de pessoas no mundo está relacionada à péssima distribuição dos alimentos, e não ao problema de escassez.

De acordo com dados oficiais elaborados pela FAO/ONU estariam disponíveis 2.800 calorias por pessoa ao dia, se houvesse uma correta distribuição dos alimentos. Ora, existem alimentos suficientes para prover em torno de 2 kg de comida diária por pessoa, dos quais 1,1 Kg de cereais, 450 g de carne, leite e ovos e mais 450 g de frutas e verduras. O problema maior, contudo, é que isso não chega a quem tanto necessita.

Como exemplo, basta atentar ao fato de que, na média, cada cidadão vivendo hoje nos EUA, consome ao ano 120 quilos de carnes (10 quilos por mês por pessoa), ao passo que um angolano, vivendo atualmente na África, não consome mais que 2 quilos por mês (menos de 24 quilos/ano).

Não por acaso, o número de obesos e de pessoas com sobrepeso no mundo (pouco mais de 1 bilhão de pessoas) supera o de famintos – 850 milhões.

Também não por acaso, os EUA, com seu calórico e pernicioso estilo fast-food, concentram o segundo maior índice de obesidade do planeta, com 31,8% da população, perdendo apenas para o México, com 32,8% (dados da Organização Mundial de Saúde – OMS, 2015).


Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental

prof.marcuseduardo@bol.com.br

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