NU

O estupro de mulheres  ganhou repercussão recente na mídia, como se tal agressão fosse fato novo, como se tal violência não fizesse parte da rotina na vida de centenas de mulheres no país. Dentre os comentários nas redes sociais se vê de tudo e, muitas vezes, atribuiu-se a culpa às mulheres, por elas estarem com roupas curtas, sensuais, ou nuas.

O corpo feminino sendo o responsável pelo desequilíbrio masculino e pela sua incapacidade de lidar com sua sexualidade doentia. Peito, Bunda, vagina despertando o bicho que mora em alguns homens, tornando-os bestas-feras! Como se suas mães, filhas e irmãs também não os tivessem.

Agora, aqui na nossa cidade, surge a polêmica (?!) sobre a exposição de fotos do fotógrafo Tchélo Figueiredo, que estava no Goiabeiras Shopping e que teve que ser retirada por reclamações de alguns frequentadores. Tal fato seria cômico se não fosse trágico! Ou seja, algumas pessoas viram as fotos de mulheres nuas e se sentiram “agredidas” pelas belas imagens desse fabuloso artista.

Fico aqui pensando: como essas pessoas, que censuram as fotos do Tchélo, ficariam diante de uma obra como a “David” de Michelangelo, que está no museu de Florença na Itália? Uma estátua de um jovem, em mármore, de 5 metros de altura. Como elas se comportariam diante do pênis daquela estátua? Gritariam histericamente? Ou, o decepariam? Ou …, bom, melhor deixar que a imaginação dessas pessoas fale por elas…

O que nos parece estranho é, em pleno terceiro milênio, no meio de um processo de transformações do mundo, constatarmos que muitos ainda enxergam o nu com tanto espanto. Num momento em que há sérias mudanças na política, quando se discute a convergência das religiões, quando a cultura de gêneros se fortalece… Num momento em que há ações de fortalecimento em favor da mulher, do negro, do indígena, da Pessoa com Deficiência (PcD)… Neste belo momento de crescimento coletivo, fotos de mulheres nuas causam esse furor!

Talvez essa seja uma das causas de tantos ficarem preocupados com nudez, em vez de se preocuparem com sua própria orientação sexual. Em vez de se escandalizarem com o corpo do outro(a), talvez devessem deitar-se num divã e se questionar. Ou, melhor ainda, deitar-se na própria cama com alguém e amá-lo (a) por toda uma noite.

Minha filha Mariah, que é atriz, me lembrou o texto “Toda Nudez Será Castigada”, onde se vê como as pessoas lidam com sua sexualidade. O personagem Herculano, apaixonado por Geni, é cotidianamente atormentado pelas três tias solteironas e fofoqueiras, que nunca se casaram e ficam cuidando da vida dos outros. Ou seja, o genial Nelson Rodrigues entendia muito bem a alma humana.

Será que o fato da nudez impressionar tanto, não ocorre porque temos corrido muito e sonhado pouco? Reclamado muito e gargalhado pouco? Pagado muitas contas e beijado pouco? Preocupado-se muito e trepado pouco?

Quem viveu nos tempos da ditadura, quando uma peça de teatro, um livro ou um filme tinham que passar pelo censor, jamais imaginou viver novamente essa cena de tragicomédia, onde há censura de fotos de mulheres nuas. Triste. Lamentável. Cruel!

A OAB-MT vai homenagear o nu de Tchélo Figueiredo com a reinauguração da sua Galeria de Arte Silva Freire, no dia 23 de junho, às 17 horas, ratificando que a censura deve ser banida de nossos dicionários, parafraseando Thiago de Mello, em seu poema Os Estatutos do Homem.

O psicanalista Wilhem Reich ensina que o ser humano necessita (necessita mesmo!) de sexo como tem necessidades de água e comida! Há séculos o assunto sexo vem sendo tratado como tabu – um dos grandes fantasmas nas discussões familiares e educacionais. Em contrapartida, em quase todas as rodas de conversa, o sexo é motivo de chacota.

Um dos mestres de vida que tive, Edil Borges, dizia “…povo que não saber foder, tá fodido!”. Muitas vezes, o sexo é visto como pecado ou, até mesmo, analisado como algo vergonhoso. Não é recente na história, a mulher sentir-se constrangida por ter orgasmos. O nu, então, paga o preço do “terreno perigoso”, do “despudorado”, do “ pecador”.

Penso que sempre é importante nos recordarmos que um dos Seres mais belos que já viveu entre nós, Jesus, foi crucificado (quase) nu!


Flávio Ferreira – Professor, Dramaturgo, Membro da Academia Mato-grossense de Letras e Vice-presidente da OAB-MT

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