home Articulistas O curioso anticapitalismo de “Os últimos Jedi”

O curioso anticapitalismo de “Os últimos Jedi”

10-01-JEDI

Uma pequena nação acossada por um embargo comercial promovido por uma grande entidade representativa de interesses empresariais que não apenas possui vasta influência na política local, mas tem à sua disposição um formidável exército para impor pela força o que não consegue pelas vias institucionais e diplomáticas. 

O que aparenta ser a transcrição de alguma situação específica da geopolítica internacional dos séculos XX ou XXI é na verdade o pano de fundo onde se desenvolve o enredo de A Ameaça Fantasma, episódio da franquia Star Wars lançado em 1999. Nele, a Federação do Comércio, insatisfeita com a cobrança de tributos, promove um embargo comercial contra Naboo, pequeno planeta governado pela Rainha Amidala. O impasse passa a ser discutido no Senado, onde a Federação promove o seu lobby por meio de parlamentares comprados a peso de ouro – ou burocratas leais aos seus interesses pouco republicanos, conforme define um dos personagens.

Ao tomar conhecimento de que os embaixadores enviados para negociar uma saída pacífica fazem parte da Ordem Jedi, o vice-rei Nute Gunray, uma espécie de presidente da Federação, recebe do Lorde Sith Darth Sidious a ordem de enviar tropas militares a Naboo, causando uma crise na República. Em determinado momento, Gunray, em um lampejo de republicanismo, pergunta a Sidious se uma invasão militar seria legal. “Eu faço com que seja”, responde o Sith, que mais à frente afirma ter pleno controle do Senado, onde a própria Federação, embora seja uma organização privada (ou melhor: não seja um país, planeta ou nação), tem sua respectiva representação parlamentar.

Mesmo diante dos apelos de Amidala, em razão do sofrimento pelo qual vem passando o seu povo, a Federação resiste em levantar o embargo (será coincidência a semelhança com a situação de uma certa ilha caribenha?), aproveitando-se da fragilidade do planeta para propor um acordo oficializando a ocupação militar na certeza de que o Senado não se oporia a ratificar um tratado bilateral assinado sob a “livre” e soberana vontade de Naboo (atente-se aqui para o conceito de liberdade apenas em seu sentido formal, um dogma onde se encerram as democracias liberais). Se a invasão fora ilegal, com a assinatura do acordo e sua ratificação esta passaria a adentrar nos meandros da legalidade, conforme articulara Sidious. Amidala, contudo, recusa-se a assiná-lo, ouvindo de Gunray a chantagem de que “o sofrimento do povo fará com que mude ideia”.

É impossível fechar os olhos para a proximidade com questões atuais como a desumana narrativa do mercado financeiro principalmente em relação a países periféricos, onde crises fiscais e endividamentos tornam-se verdadeiros álibis para a extorsão por meio de medidas que comprometem a realização de direitos essenciais de suas populações, enquanto o andar de cima permanece protegido pela bolha plutocrática das democracias modernas. Convém observar que, uma vez que se tratam de álibis, os propósitos não declarados – porém indisfarçáveis – destas medidas costumam dizer respeito à asseguração da rapina exploratória, seja pelo uso de forças militares (vide guerras do Golfo, Vietnã, Iraque e Síria), seja por meio da violência simbólica de artifícios coercitivos e institucionais (vide dívida pública, políticas de austeridade e juros).

A aproximação dos fatos narrados em Star Wars com práticas imperialistas também é notória, a exemplo das mencionadas invasões norte-americanas, alvos declarados das críticas de George Lucas (1 2). No Brasil, medidas como as contrarreformas trabalhista e previdenciária e a emenda constitucional do teto de gastos, todas realizadas conforme a agenda do mercado financeiro, conferem à saga uma verossimilhança que se consolida com o lobby contrário à arrecadação tributária e a direitos trabalhistas protagonizado por entidades como a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), equivalentes à Federação do Comércio, e figuras degeneradas como Paulo Skaf, Robson Braga de Andrade e Flávio Rocha. No plano internacional, temos a troika, formada pela Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu, entusiastas da adoção de políticas de “austeridade” incompatíveis mesmo com a noção mais vulgar de democracia.

Em Os Últimos Jedi, novo filme da franquia, essa perspectiva crítica também possui espaço cativo no desenrolar do enredo. Pablo Villaça, crítico de cinema e editor do site Cinema em Cena, realça em sua análise a tradição da série em retratar alegorias políticas, a exemplo da representação de uma elite predatória que enriqueceu com a venda de armamentos e que não se constrange em superexplorar mão-de-obra na extração de recursos naturais e maltratar animais para servir ao seu entretenimento. O emprego de trabalho infantil e a apropriação de espaços públicos para realizar seus convescotes também são retratados na sequência.

A biópsia desta natureza predatória é feita com detalhes por Karl Marx, para quem o capital não apenas tem “boas razões” para negar os sofrimentos das gerações de trabalhadores e trabalhadoras que o circundam, como também é, em seu movimento prático, tão pouco condicionado pela perspectiva do apodrecimento futuro da humanidade e seu irrefreável despovoamento final quanto pela possível queda da Terra sobre o Sol1. Ainda, o completo desprezo pela soberania de Naboo e pela situação de seu povo demonstram não apenas a falta de humanidade desta tecnocracia globalitária – para utilizar uma expressão de Milton Santos – na perseguição do lucro e da acumulação, mas também o indiscutível desprezo pela democracia, alimentado pelo modo de produção capitalista principalmente em sua forma financeirizada.

Assim como invasões militares, financiamento de ditaduras, sabotagens econômicas e suspensão de direitos fundamentais são realizados em nome da acumulação, no contexto de subjugação de soberanias nacionais por forças externas, o consequente desprezo à democracia também se faz presente em vários e emblemáticos momentos da saga – a exemplo do golpe que derrubou a República em A Vingança dos Sith e fez surgir o Império Galáctico, fruto da aliança entre a Federação do Comércio e a Confederação dos Sistemas Independentes e seus grupos paramilitares separatistas. Em mais uma “coincidência” com o Brasil contemporâneo, o primeiro ato da queda do regime republicano se deu com o impeachment do Chanceler Valorum ainda em A Ameaça Fantasma, acusado de inabilidade política e administrativa pela mesma pessoa que, ao assumir seu lugar, sepultou a Ordem Jedi e pôs uma pá de cal nas liberdades democráticas.

Em uma das cenas do novo filme, um dos personagens se auto-intitula “escória rebelde” em resposta à ofensa de “escória” que lhe é dirigida por uma alta patente da Primeira Ordem. Star Wars, como toda e qualquer obra cinematográfica, não se encontra desgarrada de seu tempo, ainda que o déficit cognitivo e o conservadorismo de um punhado de fãs os façam inclusive ir na contramão da franquia, a exemplo de quando tentaram boicotar o episódio anterior por trazer uma mulher e um negro como protagonistas. A série também não se propõe a, na esteira de conhecidas fórmulas de entretenimento, promover críticas genéricas a tiranias de qualquer natureza, mas sim a uma tirania específica contra a qual não faltam exemplos reais de alianças rebeldes e representações em carne e osso de personagens tão transgressores quanto Finn, Rey, Leia Organa e Luke Skywalker. Basta olhar ao redor, identificá-las e, afora maniqueísmos ginasiais, escolher o seu lado da história.


Gustavo Henrique Freire Barbosa é advogado e professor substituto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *