home Articulistas O Outro lado da Farsa

O Outro lado da Farsa

Quiz de hoje: O que o PT, o PMDB e uma parte da população brasileira têm em comum? Reposta: desprezo pela democracia. Para estes (e para outra siglas partidárias), democracia é um instrumento, não um fim. Uma palavra que você usa para justificar sua posição quando ganha e quando perde.

O que falar do Golpe de 2016? Ou não foi golpe? Nessas horas, gosto de ler o que caras como Elio Gaspari têm a dizer. Gosto de ouvir Ricardo Boechat. Porque noventa por cento do que vejo por aí são celebrações e lamentos clubísticos, mesmo que em alguns deles se encontre reflexões pertinentes. Segundo Gaspari, houve sim um golpe. Não um golpe no sentido de que os ritos democráticos foram desobedecidos, mas de que foram usados numa espécie de farsa, uma ópera- bufa onde todas as cartas estavam marcadas desde o início, sem que houvesse um julgamento real. Mensalões e petrolões à parte, a “bala de prata” que ratificou o impeachment serviu para Dilma como os impostos serviram para pegar Al Capone. E se ela não foi nenhum Al Capone (isso só a história vai dizer), o partido dela foi. Vale lembrar que seus 54 milhões de votos vieram manipulando os índices econômicos até não poder mais (piorando a crise que viria depois). Se a verdade desses índices (e do Brasil) fosse assumida antes do pleito, de forma honesta e necessária, Dilma sequer faria o segundo turno. O golpe dado pelo PT em seus eleitores foi a razão pela qual não saíram às ruas para defender a presidente. Para estes, a democracia já tinha sido traída. Para estes, tanto faz como tanto fez. Se Dilma voltasse, estariam tão apáticos quanto. Para estes, independente dos rumos do processo, nossa democracia só volta em 2018. Não acho que estejam errados.

Mas esse texto não é para legitimar o impeachment. Quem sou eu para fazê-lo? Nomes na linha de Joaquim Barbosa e Ciro Gomes alegam que houve um golpe e me é impossível não escutá-los. Mas Ciro é um político coerente. Quatro mandatos atrás, quando Fernando Henrique enfrentava situação parecida, Ciro também falava em golpe. Nem adianta dizer que eram aliados. Não eram. Ciro se tornou adversário ferrenho de Fernando Henrique anos antes, quando deixou o governo e o PSDB para virar oposição. Nem por isso perdeu sua coerência.

Meu texto é para mostrar que esta ópera-bufa de hipocrisia não se limita ao Congresso, à mídia seletiva e aos batedores de panelas. Entre os que defendem nossa democracia, encontro um bando de Roberto Jeffersons, um bando que não hesitaria em atacá-la se estivesse do outro lado, falando em seu nome, como fez no passado. Tente uma busca pelo Youtube. Ouça os discursos de Jandira Feghali em 2002 para falar do impeachment de FHC. Veja o núcleo do PT pedindo a cabeça de Fernando Henrique por crime de responsabilidade fiscal. Dirceu, Genoíno, Chinaglia, milhares de militantes, eleitores e sindicalistas usando as mesmas desculpas de seus algozes. Nos palanques e nas faculdades, quantos dos que hoje minimizam as pedaladas tinham elas debaixo do braço para acionar a guilhotina? Ironia das ironias, na porta do inferno, presidindo o congresso que barrou o “Fora FHC”, estava ele, nosso mordomo de filme de terror, Michel Temer, dizendo “não” ao que uma década e meia depois o levaria ao cargo mais alto da república.

A ironia não para. Entre mártires do ciberespaço, vejo colegas que há três anos apoiavam a retirada do governador do Rio de Janeiro (Sergio Cabral – PMDB – democraticamente eleito) à força durante as manifestações de então (movimento “Fora Cabral”, que foi às ruas tentar pegar o governador na porrada). Em conversa com um militante, hoje arauto da democracia, ouvi que uma bala na cabeça do governador seria oportuna, que perdíamos tempo demais discutindo democracia quando havia algo a ser feito. Ele não era exceção entre os que me cercavam, nem na praça São Salvador, nem nas redes sociais. Era regra. Digo que se o impeachment de Dilma fosse contra Aécio, nas mesmas condições, sob os mesmos pretextos, com o mesmo apoio ou apatia da população, boa parte desses mártires gritaria “Fora Aécio” com a mesma veemência em nome da mesma democracia, com a cara de pau dos batedores de panela que, por sua vez, veriam um golpe comunista em cada esquina. Uma hipocrisia justifica a outra? E uma pedalada? Justifica a outra? Para quem vê democracia como meio, tudo é questão de semântica. O importante é vencer. Que fique a lição para jacobinos e girondinos.


Luiz Mendes Junior é formado em Comunicação Social. Trabalha como tradutor, guia de turismo e é autor do romance “O Enigma da Face Oculta”, disponível na página do Clube dos Autores.

Um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *