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Revisitando a Encíclica de Francisco

A Encíclica Laudato Si´, – a Carta de Francisco -, publicada oficialmente em junho de 2015, independente da crença religiosa de cada um, inequivocamente, é um documento para a humanidade ler e compreender a ecologia em toda a sua dimensão, bem como a relação existente da natureza com as diversas formas de vida.  

A “Ecologia de Francisco”, expressada nessa Carta, ao falar sobre (…) “os gemidos da irmã terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo”, contextualiza que “o problema é que não dispomos ainda da cultura necessária para enfrentar esta crise (ecológica, grifo meu!), e há necessidade de construir lideranças que apontem caminhos, procurando dar respostas às necessidades das gerações atuais”. (n.53)

Esse oportuno argumento desenvolvido pelo Bispo de Roma, além de se alinhar, também se soma à indagação feita por Jennie Moore e William Rees, ambos da University of British Columbia, no estudo “O Estado do Mundo – 2013”, quando então indagam: “O crescimento da atividade humana hoje é alimentado, em grande parte, pela liquidação do capital natural, incluindo os ecossistemas essenciais, e pelo sobre uso dos mecanismos de assimilação de resíduos. Em suma, a atividade humana está explorando recursos naturais mais rapidamente do que eles podem se regenerar. Uma espécie de fato inteligente se arriscaria a destruir permanentemente os próprios ecossistemas que a sustentam, em troca dos benefícios cada vez mais questionáveis do crescimento desigual?”.

Sobre essa questão, ocupa lugar de destaque nas discussões em torno da crise ecológica, a premissa de que ações antrópicas são fatores centrais que desencadeiam o desequilíbrio ambiental, fruto do crasso engano cometido pela humanidade ao estabelecer o materialismo como espécie de sinônimo de progresso.

Por isso, sendo dono de uma visão míope, uma vez que enaltece a conquista material como suprassumo de prosperidade, o homem moderno atua de forma distinta em duas frentes: de um lado, se dedica ao serviço de explorar ao máximo os recursos da natureza para o abastecimento do mercado de consumo global, do qual se serve para “alimentar” sua sanha consumista; do outro, alinhando economia (atividade produtiva) à tecnologia (bens de capital e conhecimento), sob a tutela antropocêntrica e tecnocrática, age expandindo a seu bel-prazer as bases da produção física da economia mundial, pouco se importando com o passivo ambiental (destruição ecológica) ocasionado.

Entretanto, ao mesmo tempo em que domina as mais diferentes e complicadas formas de tecnologia pela inteligência da qual é portador, esse homem moderno se mostra, paradoxalmente, desprovido dela ao não promover a preservação da natureza – necessária à sua própria sobrevivência -, preferindo auferir os benefícios do materialismo, se regozijando então no consumismo em curto prazo, abrindo mão, no longo prazo, do equilíbrio ambiental e ecológico, fundamental ao bem-viver.

Se há, portanto, uma marca antropocêntrica de torpe consequência deixada no seio da civilização pelo homem moderno ao longo desses últimos 200 anos, essa marca, sem espaço a dúvidas, se deve a não menos estúpida conduta mercadológica (mais produção, mais consumo e, como consequência, mais degradação ambiental) desequilibrando assim o planeta pela exploração desenfreada dos recursos que emanam da Casa Comum (Gaia) que nos acolhe.

Também sem espaço a dúvidas, essa parece ser a razão precípua pela qual o semblante da natureza, em diferentes lugares do mundo, encontrar-se totalmente desfigurado, uma vez que a noção de limites (fronteiras ecológicas) da natureza foi e tem sido completamente ignorada pela “máquina econômica” de produzir suntuosidades.

A avassaladora liquidação do capital natural, engendrada pelas economias mundiais, no afã de expandirem sua produção de mercadorias, talvez seja o “produto” mais ilustrativo do atual desequilíbrio ambiental.

Visivelmente, tal prática está de mãos dadas com diversos interesses econômicos, bem como com os rendimentos financeiros de poderosos grupos corporativos que ganham abusivamente com a não menos abusiva destruição da natureza (vide os madeireiros ilegais da Amazônia, para citarmos um único exemplo).

Por isso, uma vez mais, as palavras de Francisco, ao revisitarmos a leitura de sua Encíclica, pedem passagem e se apresentam cada vez mais oportunas: “não haverá uma nova relação com a natureza, sem um ser humano novo” (n.118).

Quanto a isso, não tenhamos dúvidas de que, não sendo fácil a conversão de rumos, principalmente quanto a questão cultural que enraizou a ideia de que o consumismo proporciona felicidade, “a esperança”, por sua vez, fará a sua parte, “convidando-nos a reconhecer que sempre há uma saída”. (n.61).


Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental.

prof.marcuseduardo@bol.com.br

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