NOTA DE REPÚDIO​

OPAN se manifesta contra as portarias 68 e 80 do Ministério da Justiça
É com surpresa e grande preocupação que a Operação Amazônia Nativa (OPAN) recebe a publicação das portarias 68, de 14 de janeiro, e 80, de 19 de janeiro de 2017, do Ministério da Justiça e Cidadania. Embora a portaria 80 tenha sido publicada em razão das críticas feitas à anterior, ela ainda preserva a essência e os riscos para a questão fundiária relacionada aos povos indígenas.

Leia Mais…

De figuras menores

Maior espetáculo da terra não é título fácil e mais difícil ainda é mantê-lo décadas após décadas neste planeta competitivo onde a duras penas o Brasil consegue poucas conquistas no comparativo com as nações poderosas. Independentemente das fraquezas nacionais, o carnaval do Rio é cadeira cativa na magia de proporcionar uma festa que reúne beleza, ginga, arte, cultura, história e o melhor de tudo: a boa malandragem carioca.

Se o samba tem alma, essa é o carnaval da Marquês de Sapucaí onde acontece a grande kizomba que mistura mulheres de beleza estonteante com o melhor da musicalidade afro-brasileira e que leva ao delírio as arquibancadas e os espectadores mundo afora.

A passarela mágica do samba que Brizola idealizou pelas mãos de Niemeyer é um enclave livre e multirracial que não se deixa tutelar pelos capitães da indústria, os barões da soja, os marajás dos poderes, nem pelos coronéis da política. Ali, os puxadores de samba, os carnavalescos, os destaques, as comunidades que sambam no chão e enfim o universo das escolas canta com o coração criando e recriando mundos ao seu modo.

Foi naquele palco em 1990 que a Estácio de Sá cantou e encantou com o samba “Langsdorff, delírio na Sapucaí”. Também ali, em 2013 a Mangueira entoou “Cuiabá, um paraíso no centro da América”. Ainda na mesma passarela, em 2016 a Unidos da Tijuca arrebentou com “Semeando Sorriso a Tijuca festeja o solo sagrado”. Será ali, neste ano que começa com a perda de Teori Zavascki que a Imperatriz Leopoldinense cantará ao mundo “Xingu, o clamor que vem da floresta”.

O samba da Imperatriz despertou a ira de entidades patronais rurais mato-grossenses que não economizam críticas à sua letra buscando por todos os meios satanizá-la, bem como ao personagem escolhido para seu maior destaque, o septuagenário cacique Raoni Metuktire, líder xinguano na reserva Capoto-Jarina.

Defendo o samba da Imperatriz e não vejo críticas de sua letra ao produtor rural, mas ainda que a escola questionasse o homem que planta eu defenderia seu direito de expressão. Entendo que as entidades insossas que representam o agronegócio tentam criar um fantasioso cenário de agressão ao campo, para justificar suas existências.

O brasileiro, sambista ou não, respeita o produtor rural e o tem no mais alto conceito. Na longa trajetória do samba antes e depois da Sapucaí nunca presenciei desfile agressivo ao abnegado filho de Deus que arranca da terra o nosso sustento.

Não deixem que as falsas bandeiras das entidades mordômicas e controladas por grupinhos que se eternizam no poder lancem mais uma frente de luta de classes no Brasil. Quem produz, quer seja grãos ou samba, está muito acima das picuinhas oportunistas. Sambemos, pois, no Rio; cultivemos o solo aqui. Olhemos para frente e deixemos para trás as figuras menores.


Eduardo Gomes é jornalista
eduardogomes.ega@gmail.com

300 anos: a omissão

As datas comemorativas representam momento significativo, seja para a vida de uma pessoa ou para a de um povo. Sobre isso parece não pairar dúvida. E quando ela é contada em séculos, o relevo é sem dúvida maior.

Cuiabá, que é mais antiga que Mato Grosso, em dois anos completará seu tricentenário. Pelo que representa, não apenas sob o aspecto afetivo para a maioria dos que aqui vivem, mas do ponto de vista histórico e, neste sentido para todo o Brasil, esse aniversário tem um valor de grande alcance.

A cidade tem sido reconhecida e celebrada por seus poetas, cronistas e historiadores como a de ser uma terra generosa, aberta, hospitaleira e acolhedora. O seu calor fraterno supera ao do clima e são raros os que, vindo das mais distantes paragens e inclusive do exterior, não se sintam aqui fraternalmente acolhidos como filhos adotivos. Para a história brasileira, Cuiabá foi a vanguarda da civilização lusitana nos trópicos, a ponta de lança na defesa da soberania nacional, a sentinela avançada da integridade territorial brasileira, a guardiã dos feitos heroicos na conquista do extremo Oeste.

Por todas essas razões, e por outras mais, a proximidade do tricentenário deveria estar já, e não de agora, nos programas dos governos estadual e municipal. Nos programas de governos? Não cabe espanto, senhores. Programas dos governos, sim. A celebração de uma data tão significativa não pode se resumir a um mero evento circunstancial, mas deve necessariamente aportar uma pluralidade de realizações no campo administrativo, cultural, econômico e social.

No entanto, com tristeza constatamos que não há nenhuma iniciativa desses governos na preparação da efeméride. Nenhum deles fez algo visível ou mesmo anunciou qualquer iniciativa. Comemorações dessa envergadura, em qualquer outro recanto, são preparadas com anos de antecedência, mas aqui, faltando tão somente dois anos, reina silencio.

Embora tal comemoração não deva ser restringir apenas ao aspecto cultural e turístico, e sobre isso voltarei, é, no entanto, para esse lado que na grande maioria das vezes estão voltadas as atenções. O governo do Estado já teve tempo mais que suficiente para ter iniciado preparativos nessa direção. Por óbvio, que a comemoração não é só da capital, mas do Estado. O prefeito que saiu nem de longe se mostrou preocupado com isso.

O novo alcaide pode adotar providencias, necessariamente urgentes, para que a data não seja um mero evento feito de atropelo, recheado de fogos de artifícios e de bandas funks e de sertanejos-universitários. Acontecimento trêfego, oco, que será esquecido já no dia seguinte. Além de sempre altamente oneroso para os munícipes. Cuiabá merece muito mais que isso. Pelo menos espero que assim compreendam.

Não conheço o recém-nomeado secretário de Cultura, nem de perto nem de ter ouvido dele falar, nunca li nada de sua autoria ou sobre qualquer atividade por ele desenvolvida no campo literário ou não, sequer sei em que área cultural atua ou atuou, no entanto vou dar-lhe o crédito da dúvida. Penso que ele pode mostrar a que veio se, entre outras iniciativas, tomar a pulso a comemoração do tricentenário. O prefeito, não só por ser filho da terra, muito embora isso não seja titulo bastante, pode dar-lhe o respaldo necessário. Repito, uma ação que deve ser conjunta de toda a administração, mas podendo ser capitaneada pela área cultural. Até porque, trata-se de uma efeméride que deva ser celebrada com o intuito de deixar raízes.


*Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e professor. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Publicou, entre outros, a antologia “Cuiabá – Corpo e Alma”.