home Direitos Humanos Pedro, o mais forte sinônimo do Araguaia

Pedro, o mais forte sinônimo do Araguaia

Não faz muito tempo matavam-se índios, padres, agentes de pastoral e sindicalistas na selva e nas cidades em Mato Grosso.  Os mártires que protagonizaram a defesa do chão e do patrimônio natural entraram para história; os sobreviventes ainda narram situações. Entre esses célebres personagens está o missionário da Ordem dos Claretianos Pedro Casaldáliga, 83 anos, por mais de 30 anos bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia.

Montezuma Cruz
Do Conselho Editorial
Poeta, simples, corajoso, temido, nunca se calou. Dispensou o uso da mitra e o cajado, símbolos do poder episcopal. No entanto, reuniu os poderes da força popular, à custa de prisão, tortura e sucessivas perseguições.Foi o primeiro a denunciar o trabalho escravo no País, em 1971. Nesse mesmo ano lançou o documento “Uma Igreja da Amazônia, em conflito com o latifúndio e a marginalização social” — sua primeira carta pastoral e referência aos opositores da ditadura militar instaurada no País em 1964.A pobreza o indignou sempre. “Certo dia, depois de uma missa, um fazendeiro que se dizia muito católico me falou: padre, ouvi seu sermão em defesa dos peões, mas peão é peão, deve morar embaixo do chapéu e comer lavagem; não temos de ter pena deles não. Veja a mentalidade que ainda impera no Brasil”.

O jornalista Donizete Oliveira, de Maringá (PR), visitou d. Pedro, constatando que o mal de Parkinson, os problemas cardíacos e de audição lhe impedem de viajar, mas sua casa simples— do portão à cozinha é um corredor sem portas. “Índios, ribeirinhos, peões e artistas marcam presença constante. A saúde frágil não abala suas convicções”, disse Oliveira.

Talvez seja esta a paga do ser humano Pedro, incapaz de colocar a situação pessoal, o “eu”, à frente da situação dos semelhantes. Daí, encarnar os predicados de um santo. Um santo catalão do qual Mato Grosso deverá lembrar-se pela eternidade.

Também Eduardo Lallana e Charo Garcia de la Rosa, fundadores da organização “Tierra Sin Males”, foram ao encontro dele para analisar a redução da desnutrição e da mortalidade infantil, conquistada por um projeto financiado pela Província de Soria (Espanha).  Ouviram o sincero desabafo de quem sabe reconhecer as imperfeições. “Meu maior defeito é a impaciência”. O grande pecado do mundo hoje é o capitalismo liberal, opinou o bispo emérito. E um dos pecados importantes da Igreja Católica, a “falta de capacidade para unir-se às igrejas, absolutizando o que não é absoluto e não respondendo ao testamento de Jesus: “Que todos sejam um”.

“Somos amor, traição

e medo, mas

também esperança”

Analisa desta maneira a morte do pai, da mãe, de líderes, militantes e agentes de pastoral: “São momentos tristes, mas como a esperança continua não chega a ser um drama, uma tragédia. Não creio que possa dizer que tenho vivido tristezas maiores”. Para dom Pedro, a esperança dá garantia posterior a todos os fracassos, a todas as decepções. “Eu digo em algum lugar de um diário meu: Deus é amor, nós somos amor, traição e medo, mas também esperança, e essa esperança resolve todas as decepções, todas as tristezas, todos os fracassos”.

Pedro comandou durante três décadas uma das maiores prelazias do mundo, construindo uma comunidade que projetou líderes solidários.

Em 11 de outubro de 1976 foi alvo de um atentado por quatro policiais militares, durante visita a Margarida e Santana,
duas mulheres presas e torturadas na cadeia de Ribeirão Bonito. Fiéis rezavam uma novena em louvor a Nossa Senhora Aparecida. Um dos soldados desferiu um soco e uma coronhada no padre João Bosco Penido Burnier e, em seguida, um tiro certeiro. Ele morreu nos pés de Pedro. “A bala era para mim”, recorda. Na agonia, João Bosco — que trabalhou com os índios Bakairi — ofereceu a vida pelo Conselho Indigenista Missionário, pelo Brasil, invocou ardentemente o nome de Jesus e recebeu a unção. Suas últimas palavras: “Acabamos a nossa tarefa”.

Documentos doados ao Arquivo de Cataluña – Os documentos reunidos pelo bispo durante sua vida no Brasil foram entregues à organização Arquivistas Sem Fronteiras e doados ao Arquivo Nacional de Cataluña, na Espanha, com a assistência do sucessor dele em São Félix, o brasileiro Leonardo Ulrich Steiner.

O acervo contém 250 mil documentos entre arquivos eclesiásticos, pessoais e de seu trabalho pastoral. Todos foram microfilmados e digitalizados. “Essa doação é um exemplo de luta para que as comunidades não percam a identidade”, afirmou o subdiretor dos Arquivistas sem Fronteiras, Alfred García.

Para o diretor do Arquivo Nacional da Cataluña, Josep María Sans Travé, o acesso à documentação será gradual, de acordo com a Lei de Consulta. Ela assinala que os documentos não podem ser consultados até 50 anos após sua publicação.

Na Missa da Terra Sem Males, que escreveu com o poeta Pedro Tierra, dom Pedro traduz o imaginário católico da Teologia da Libertação, recupera e incorpora em seu discurso elementos que identificam os diversos países da América Latina e Central. Fala dos povos indígenas de lá e de cá. Utiliza símbolos populares, entre os quais a alegoria. A missa com poder telúrico e espiritual arrepiou o regime militar e causou uma revolução cultural na própria Igreja.

O bispo emérito gosta de recitar Dom Quixote de la Mancha: “Sonhar mais um sonho impossível/Lutar quando é fácil ceder/Vencer o inimigo invencível/Negar quando a regra é vender”. Foi desta maneira que abençoou, sorrindo, o jornalista Donizete Oliveira. Da mesma forma como abençoava e ainda abençoa o povo do Araguaia.

 


Matéria atualizada, foi publicada em Junho de 2007, na revista impressa Sina – edição nº5


  • Dom Pedro nasceu em Balsareny, na Espanha, em 16 de fevereiro de 1928. É filho de um lavrador-vaqueiro. Jovem, entrou para a ordem dos Missionários Claretianos. Chegou ao Brasil em 1968, o mesmo ano que o Ato Institucional Nº 5 (AI-5) foi editado. Isso talvez fosse um sinal de suas relações com a ditadura militar (1964-85), sempre marcada por censuras, ameaças e prisão domiciliar.
  • Em 1971, foi sagrado bispo. No discurso de posse, fez duras críticas aos latifundiários. Por conta disso, passou a ser perseguido por pistoleiros contratados por grandes fazendeiros. “Perdi a conta das vezes que minha cabeça foi posta a prêmio e que me disseram que não veria outro dia. Mas Deus sempre me protegeu”.
  • O inconformismo levou-o a entrar em confronto com o Vaticano. Todo o bispo deve visitar o Papa de cinco em cinco anos. Depois de sua nomeação, D. Pedro passou 17 anos sem ver o Santo Padre. Quando, finalmente, foi a Roma, foi criticado por apoiar o regime sandinista da Nicarágua e a luta dos camponeses da América Central. Aconselharam-no a se calar. Não se calou. Foi ameaçado com o ‘silêncio obsequicioso’, uma punição da Igreja que proíbe declarações públicas. Continuou fazendo suas críticas.

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