home Direitos Humanos Assentamento Roseli Nunes celebra 20 anos de resistência agroecológica e de luta por um território livre de agrotóxicos

Assentamento Roseli Nunes celebra 20 anos de resistência agroecológica e de luta por um território livre de agrotóxicos

“A lei deveria garantir a liberdade para todos, mas ainda não vivemos em um território livre. Por isso precisamos nos mobilizar e organizar”, disse Nério Gomes de Souza, da Associação Regional de Produtores Agroecológicos – Arpa, durante o aniversário de 20 anos do assentamento Roseli Nunes, localizado no município de Mirassol D’Oeste. O assentamento, que conta com cerca de 400 famílias em uma área de 3.500 hectares, é um símbolo de resistência frente a um sistema econômico e politicamente injusto, que favorece unicamente o agronegócio, a mineração e a matriz energética.

É nesse cenário que Fran de Paula, técnica educadora da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional – Fase e mestra em Saúde Pública, realizou a pesquisa de mestrado ‘Construindo territórios livres de agrotóxicos para a promoção da agroecologia’. O estudo reforça a necessidade de uma análise crítica e social do território sem desassociá-lo do contexto provocado pelo atual modelo de desenvolvimento. Os resultados foram expostos em seminário no dia 17 de março, contando com a participação dos moradores do assentamento e de membros da Arpa, da Fase e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST.

De acordo com Fran, elementos externos que impactam o assentamento marcam a incompatibilidade entre o agronegócio e a agricultura familiar de base agroecológica. “Entendemos os agrotóxicos como parte de um pacote imposto pelo modelo de desenvolvimento hegemônico e que o território só se constituirá “livre” de agrotóxicos diante do rompimento total com esse modelo”, destaca. Nesse sentido, a pesquisadora explica que a construção de territórios livres de agrotóxicos assume um posicionamento ideológico e político.

Durante a atividade de comemoração do aniversário do assentamento, a técnica ressaltou a importância das práticas agroecológicas adotadas no assentamento. “Elas contribuem para a promoção da saúde no território e, consequentemente, para sua condição de busca por liberdade”, afirma. Explicou, ainda, que os princípios da agroecologia promovem uma transição para uma relação harmoniosa e equilibrada com o espaço em que se habita, vislumbrando uma sociedade isenta de injustiças sociais e ambientais.

Enfrentamento aos conflitos

Maiana Maia, do Grupo de Assessoria Nacional da Fase, promoveu um debate acerca dos conflitos territoriais que impedem o avanço da agroecologia e ameaçam o território. Ela explicou que além de ser uma referência no estado de Mato Grosso, o assentamento Roseli Nunes é também o ponto de partida da Federação na luta contra os impactos da mineração. Porém, apesar de toda a história de luta do assentamento por reforma agrária e de ser uma área onde famílias produzem alimentos saudáveis, o governo de Mato Grosso anunciou a descoberta de depósitos de minério de ferro e fosfato estimados em 11 bilhões e 450 milhões de toneladas², respectivamente. Ou seja, os moradores e moradoras correm o risco de perder seu território para a exploração de minérios voltados principalmente para a exportação. Nesse contexto, ela apresentou o livro ‘Diferentes Formas de Dizer Não: Experiências internacionais de resistência, restrição e proibição ao extrativismo mineral’, lançado em 2014 pela Fase, que reúne experiências de vários países na luta contra essa prática. Maiana quis demonstrar que os moradores do assentamento não estão sozinhos na luta contra esse sistema insustentável, pois existem vários outros casos de resistência. Porém, é necessário continuar se fortalecendo, dialogando e estabelecendo parcerias e alianças a nível nacional e internacional.

Lucineia Freitas, do MST, enfatizou ainda mais a necessidade de organização e fortalecimento do assentamento, dos movimentos sociais e da sociedade civil, dada a conjuntura política nacional e internacional, que ameaça todos os povos e trabalhadores do mundo. No Brasil, desde o golpe de estado, os retrocessos não param, indo desde a Proposta de Emenda Constitucional – PEC número 287, a ‘PEC da Morte’ da Previdência, até projetos de lei que pretendem classificar agrotóxicos como produtos ‘fitossanitários’.

Plano estratégico e carta política

Durante a comemoração dos 20 anos do assentamento, também foram lançados um plano estratégico de resistência, que contem ações com vistas à construção de Territórios Livres fundamentais para a promoção e para avanço da agroecologia, e uma carta política. “Anunciamos que estamos na contraposição ao projeto do agronegócio, que vem matando a vida dos camponeses, tirando a nossa cultura, costumes e saberes. Pois entendemos que o nosso território tem muito valor, conquistamos nossa terra e daqui tiramos o nosso sustento”, destaca um trecho do documento.

Apesar de um futuro preocupante e ameaçador, o assentamento Roseli Nunes, que já enfrentou leis injustas, hidrelétricas, agronegócio e mineração, continua firme na organização, luta e resistência, apostando nas gerações futuras. Nesse sentido, é bom relembrar que a escola Madre Cristina, palco do seminário, foi a primeira Escola do Campo em Mato Grosso. Justamente, para a ocasião do aniversário do assentamento, cerca de 20 alunos da escola fabricaram uma ‘cápsula do tempo’, onde guardaram uma cópia da ‘Carta do Assentamento Roseli Nunes: Vozes do Território 2 – A luta por um território livre!’ e do Plano Estratégico de Resistência, ambos apresentados durante o evento. A cápsula foi enterrada em um lugar específico ao mesmo tempo que um pé de ipê, e será desenterrada pelos recém-adultos daqui a dez anos, para avaliar os frutos da resistência aos conflitos e a continuidade na construção de um território realmente livre.

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