home Direitos Humanos O sumiço dos processos do Getat (1)

O sumiço dos processos do Getat (1)

Trabalhei durante quase dez anos em Rondônia, na Amazônia Ocidental Brasileira. Até então acreditava que lá se concentravam os maiores entraves fundiários do País. Equivocara-me: conheceria um pouco do imbróglio protagonizado por pessoas que pretendiam criar o Maranhão do Sul.

Latifundiários do sul maranhense manobravam na Superintendência do Incra para o Separatismo à força. Foto Arquivo Nacional
Latifundiários do sul maranhense manobravam na Superintendência do Incra para o Separatismo à força. Foto Arquivo Nacional

Em São Luís (MA) recebi do Jornal do Brasil algumas missões no sul do estado, próximo à divisa com o Pará. Publiquei diversas reportagens revelando o desmonte do Grupo Executivo das Terras do Araguaia e Tocantins (Getat), instrumento do regime militar que privilegiou altos funcionários civis, militares, o filho de um ex-ministro e um ex-governador de Goiás. Alguns viraram fazendeiros sem investir um centavo em Goiás, no Pará e no Maranhão.

Não faltava dinheiro para dividir o estado. A União Democrática Ruralista (UDR) cotizava-se pela emancipação, cujo movimento fora liderado pelo senador Edson Lobão (PFL-MA). Seus aliados eram Davi Alves da Silva (PDS), autor da proposta e José Teixeira (PFL), apoiados pela bancada pefelista na Assembleia Legislativa, liderada pelos deputados Leo Franklin e Raimundo Cabeludo.

Em meio à enorme bagunça o Getat não tinha metodologia correta para formular processos de desapropriação. Com isso, 24 deles desapareceram entre 1980 e 1987, quando a UDR agia com todas as suas garras no Maranhão, conseguindo prejudicar o trabalho de poucos servidores eficientes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e do próprio Ministério das Reforma e Desenvolvimento Agrário, conhecido pela sigla Mirad.

O deputado federal Davi Silva, dono da Fazenda Data Taboleirão no município de João Lisboa, fazia parte do grupo beneficiado e ainda era acusado pelo jornal da família Sarney de ser “aliado ao crime organizado”.

Os separatistas alinhavam seus pontos fortes: Imperatriz, futura capital, tinha na época um milhão de cabeças de gado, forte indústria madeireira, 300 mil toneladas de arroz por ano, 60 mil t de milho, 12 mil t de soja e seria um polo produtor de ferro gusa (nove usinas já funcionavam em Açailândia), fortalecendo-se ainda com a Ferrovia Norte-Sul.  Segundo seus líderes, Maranhão do Sul poderia nascer com 108 mil km² e 850 mil habitantes.

Já o ex-governador Luiz Rocha, um dos mandatários da UDR, protegera muita gente por meio do Instituto de Terras do Maranhão (Iterma). A extinta Companhia de Terras do Maranhão (Coterma) que funcionara no governo João Castelo, compadre de José Sarney, também tinha culpa no cartório, pois amparara negociatas.

Não era só isso. O superintendente regional do Incra, Francisco de Assis Souza, e seu irmão, o vice-governador João Alberto de Souza (na época, ambos membros do Partido da Frente Liberal) entravavam o quanto podiam o andamento da reforma agrária nas 12 áreas de conflito com 300 mil hectares que deveriam assumir. Os fazendeiros eram amigos deles e exerciam influência na autarquia.

Os grileiros comemoravam. Entre os imóveis em litígio estavam os da Fazenda Pindaré: 84,5 mil hectares nos municípios de Açailândia e Santa Luzia, da União Agropastoril e Colonizadora Imperatriz; da Gleba Frades Industrial e Agropastoril (55 mil ha), de Bento Scalosi e Sebastião G. Neto, em Imperatriz, entre outros acima de 50 mil ha – latifúndios bafejados pelos incentivos fiscais da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) e conhecidos com todas as letras nos escalões do poder em São Luís e em Brasília.

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*Montezuma Cruz é editor de Amazônias. Colabora com Gente de Opinião, CaféHistória, Revista Momento, Supersitegood e Revista Sina (ambos de Cuiabá). Matéria Publicada em  20 de Fevereiro de 2013

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