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Levante Popular da Juventude: esperança no futuro do Brasil

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O Levante incorpora milhares de experiências, o território e o meio ambiente, e, em especial, incorpora o afeto na luta pela justiça social.

Todas as pessoas que estão desesperançadas com os ataques atuais à democracia brasileira deveriam ter tido a oportunidade de passar um dia no III Acampamento do Levante Popular da Juventude ocorrido em Belo Horizonte de 5 a 9 deste mês. Mais de 7.000 jovens de 26 estados da federação se reuniram no Estádio do Mineirinho para dar continuidade ao seu propósito de discutir e elaborar um Projeto Popular para o Brasil.

Alegria, criatividade, diversidade, inventividade explodiam em cada canto, aberto ou fechado, do Estádio. Música, dança, teatro, malabarismo, artesanato, conviviam com a disciplina dos numerosos grupos que discutiam os temas da programação agendada. Grandes plenárias com os principais convidados e artistas eram sucedidas pelos debates nas tendas e salas fechadas para o tratamento de temas específicos de interesse da juventude e da sociedade brasileira. Letícia Sabatela, João Pedro Stedile, Lula, Julian Assange  (transmissão ao vivo da Embaixada de Quito em Londres) e Eddie Conway (ex- Panteras Negras dos EUA) foram alguns dos principais convidados. O Levante não tem filiação partidária mas registra seus aliados e parceiros. Como tema central do III Acampa foi discutida a Constituinte Exclusiva e Soberana para enfrentar a crise e lutar pela Reforma Política.

Nada como o frescor de um movimento primaveril para uma esquerda que está, digamos, no outono. Não há exagero nisso se considerarmos que, além dos temas tradicionais da agenda política, o Levante traz forte, ou melhor fortíssima, característica de lideranças de mulheres, população negra e LGBT além de se integrar às práticas de arte e cultura. A subjetividade não os assusta assim como a nova relação com seus corpos.        

Organizar tal evento custaria muito caro se seus participantes não dividissem as tarefas sob a forma de auto-gestão: alimentação, limpeza, comunicação, segurança, equipamentos (som, cadeiras, projetores, tendas), saúde… A equipe de saúde incluía massagistas, homeopatia e até psicólogos. Convidados eram buscados e trazidos dos aeroportos ou endereços, nos horários precisos, por voluntários de diversas organizações. Ônibus fretados vieram de várias partes do país trazendo jovens que passaram até 4 dias viajando. Cada ônibus tinha um coordenador e fazia reuniões diárias para divulgar os horários da programação. A estadia se dava em barracas ou colchões estendidos no chão das áreas fechadas. Drogas ilícitas foram proibidas para não comprometer a luta do Levante e dar assunto para a mídia conservadora. A portaria era fechada às 23 horas para ter o controle dos participantes.

O Levante se estrutura em células, com forte base territorial. O acampamento nacional é a instância máxima de tomada de decisões. Predominaram no encontro estudantes universitárixs (a maioria) e moradorxs das periferias e favelas urbanas embora xs camponeses e trabalhadorxs urbanxs se fizessem também presentes. A preocupação com a discussão da agenda política  está fortemente calcada na formação histórica e teórica, daí a presença de professores e estudantes universitários convidados que compuseram mesas com lideranças populares. Os alojamentos no Estádio do Mineirinho tinham nomes: Cabanagem, Balaiada, Palmares, Revolta das Barcas, Encruzilhada Natalino, e Guarani Kaiowa. Teoria e ciência, ligadas à prática (ou “ vida vivida” como diria Sergio Buarque de Hollanda) é fórmula transformadora para um país onde a elite faz um esforço secular para esconder as condições de vida do povo, o mundo do trabalho e a agressão ao meio ambiente. A construção do senso comum, ocultando a realidade, é tarefa que a mídia faz cotidianamente no interior dos lares brasileiros. O Levante tenta destruir essa narrativa a partir da vivência dxs jovens, isto é, a partir da sua realidade social.

Essa experiência (ela não é a única, no Brasil), mostra que a esquerda brasileira está em reconstrução. Trata-se de uma reconstrução popular e independente, no caso do Levante. E isso é importante. Aparentemente está sendo corrigido um dos erros recentes que levou a esquerda ao “poder pelo poder” e afastar-se das forças vivas da sociedade. Aparentemente ainda estão sendo corrigidas as marcas do machismo e da lgbtfobia. É mais do que evidente que não é possível adiar mais o acerto de contas da sociedade brasileira com os séculos de escravidão cuja herança está tão presente nas condições de vida, trabalho e salário dos negros e negras, em pleno século XXI. O Levante incorpora milhares de experiências diversificadas, incorpora o território e o meio ambiente, e, em especial, incorpora o afeto nas relações sociais  e na luta pela justiça social.
      
Créditos da foto: Levante Popular da Juventude

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